23 de Junho de 2011
Sal

O pão é na sua essência composto por água, farinha e sal e quando se trabalha com tão poucos ingredientes a qualidade é de extrema importância. A qualidade da farinha já aqui discuti por alto, farinhas sem aditivos e moídas em mó de pedra produzem um pão de melhor qualidade e mais nutritivo, e é um longo tema que "daria pano para mangas". Julgar a qualidade da água pode soar um bocado estranho mas também tem impacto, especialmente no fermento, pois sei que alguns de vocês tiveram problemas a usar água da torneira para refrescar os vossos iscos. Nunca discuti nada sobre sal e talvez seja apropriado escrever algo sobre isso.

O sal industrial, por norma, tem uma série de aditivos ou então tem menos valor nutricional que o sal marinho e a diferença de sabor é extrema. Quando faço pão uso sal marinho grosso que provém algures de Itália pois não encontro sal português aqui na Suécia (pssttt.. produtores, não querem exportar para cá?) e por a Suécia não produzir sal. No entanto, tenho reparado nas minhas imensas leituras que quem leva o pão a sério usa sal grosso de Guérande.

 

O sal de Guérande é produzido no oeste françês, em Guérande, e é feito segundo processos artesanais que datam desde um par de séculos atrás. O sal grosso é característico pela sua cor cinzenta, devido ao contacto com argila que faz parte das salinas, e por ser bastante húmido ao toque (rico em magnésio). É recolhido manualmente, não-refinado, rico em nutrientes e não é incomum encontrar, de quando em vez, uma pedra ou um daqueles peixes muito pequenos que decidiu tirar umas férias nas salinas. Artesanal como eu gosto. Ao investigar mais sobre este sal, o que o faz tão especial e à procura de lojas online, tive uma epifania - "Estou aqui eu à procura de sal francês, quando em Portugal também temos uma rica história na produção de sal" - e assim mudei o foco da minha investigação para o sal português.

 

O sal tradicional português, infelizmente como grande parte das tradições artesanais, estava até há alguns anos em perigo de se tornar um reduto da memória. Felizmente, algumas mentes se aperceberam que o sal tradicional português tem qualidade para rivalizar com os melhores sais do mundo. A produção do sal em Portugal restringe-se em maior parte ao Algarve e Aveiro, e foi na primeira região que eu encontrei informação sobre o sal produzido no Parque Natural da Ria Formosa. A Necton, resultado das mentes de Vasco Pires e João Navalho, começou em 1997 a vender os seus produtos de sal (flor de sal e sal marinho tradicional) e atingiram reconhecimento nacional e internacional. Tal como o sal de Guérande, o sal marnoto é feito com base em processes artesanais, recolhido manualmente pelos marnotos, é rico em magnésio e em valor nutricional. A grande diferença é que o sal marnoto é muito mais barato que sal de Guérande ou sal de Maldon (outro sal britânico bastante popular)! Não percebo porque ainda se vende sal industrial em Portugal.

 

Está na altura de encomendar uma remessa de sal marnoto de Portugal e apoiar uma tradição secular.

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publicado por padeiro às 18:29
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Apoiadíssimo!!! Bravo ao sal português e a quem o aprecia tto qto eu :) Na minha cozinha só entra "Marnoto".
Adorei teu blog e estou só esperando o verão firmar pé aqui no norte para começar meu fermentinho e adentrar na arte do pão.
deixado em 24/06/11 às 00:19
Viva Carla,

Obrigado pelos gentis comentários. Parece que eles também produzem outro sal chamado "Belamandil" mas não sei bem qual a diferença. Vou enviar-lhes um mail e perguntar. Aqui o verão também ainda não começou a sério, mas não é razão para adiar começar a fazer o seu próprio pão ;) Boa sorte!
deixado em 24/06/11 às 09:36
Na Figueira da Foz também ainda se produz sal que é o que habitualmente uso em casa, e lembrei-me de um sal que ainda não experimentei, o sal de Rio Maior, creio que são as únicas salinas portuguesas que não ficam perto do mar: http://www.ribatejodigital.pt/ribatejodigital/PT/ConhecaRibatejo/LocaisInteresse/Natureza/salinas.htm
Bom fim de semana
deixado em 24/06/11 às 00:46
andré
http://www.regiaoderiomaior.pt/marinhas.htm
http://pt.wikipedia.org/wiki/Salinas_da_Fonte_da_Bica
http://www.coopsal.com/Portugues/quem_somos.htm
http://www.lifecooler.com/edicoes/lifecooler/desenvRegArtigo.asp?art=856&rev=2

97%NaCl
deixado em 24/06/11 às 10:02
Carlos Ferreira
"Não percebo porque ainda se vende sal industrial em Portugal."
Simples de perceber! Uma embalagem de 1Kg de sal Marnoto (que por acaso eu compro para usar apenas na comida) custa aprox. 1€, enquanto que uma embalagem de sal refinado industrial, custa €0,15... Só é quase 10x mais barato...
Infelizmente para as pessoas comuns, sal é sal, seja qual for a marca...
deixado em 24/06/11 às 11:14
Concordo Carlos, mas se formos a ver 1€ é o preço de dois cafés? Não é nada comparado com 1kg de sal que usado apenas para comida dura mais de um mês. Se gastamos às vezes bastante dinheiro em ingredientes melhores e mais saborosos porque havemos de os condimentar com o sal mais barato? Soa-me como uma antítese.

No entanto, concordo em 100% contigo e o mal não se aplica apenas ao exemplo do sal como a muitos outros ingredientes - em especial carne... por vezes arrepia-me pensar porque um pedaço de carne que compro no supermercado consegue ser tão barato...
deixado em 25/06/11 às 01:14
Carlos Ferreira
É por isso que eu compro sal marnoto :)
Infelizmente as pessoas não pensam assim... as pessoas comparam os preços, não a qualidade...
Olham para um saco que custa €0,15 outro que custa €1 e pronto... vão imediatamente para o de €0,15 porque para essas pessoas "Sal é Sal, seja lá onde for"... Não pensam... não acham estranho... não estão habituadas a pensar... estão habituadas a que lhes dêem as coisas feitas... :S

A arte da cozinha está a perder-se...
deixado em 25/06/11 às 01:17
Olá!
Como a Manuela diz, aqui na Figueira da Foz ainda se produz sal, por métodos tradicionais. Inclusive a Câmara Municipal e o Turismo da Figueira tem apostado imenso na preservação e valorização das salinas. São parte fundamental do Ecomuseu do Sal.
É possível chegar junto dos produtores, e comprar sacos de sal com cerca de 15 kg por +/- 3 a 4 euros. E comprar, igualmente, flor de sal.
Além disso é sempre muito agradável dar um passeio por lá, gozar a paisagem, as cores, os cheiros, a tradiçao,...

Tânia
deixado em 24/06/11 às 20:25
Olá Tânia, não conhecia até a Manuela falar. Está na altura de fazer umas visitas à Figueira da próxima vez que estiver em Portugal. :)
deixado em 25/06/11 às 01:15
Acho que sim! É uma cidade rica! Temos praia, rio, serra, ... , salinas, sol, luz e cor, ... , agitação de Verão, serenidade durante o resto do ano. É sem dúvida uma cidade fantástica!

:)

Tânia
deixado em 25/06/11 às 09:56
lídia david
Olá,
Ainda existem salinas em funcionamento em Alcochete onde poderá também ir comprar sal e flôr de sal.
No ano passado estivémos lá, moramos perto, e foi muito bom pois para além de ter a possibilidade de comprar, estivémos toda a manhã a ver os salineiros trabalharem e a conversar com o Senhor que é o encarregado das Salinas e que trabalha lá há aprox. 60 anos.

Lídia
deixado em 27/06/11 às 08:46
louise
Guerande não esta no noroeste mas no oeste por baixo da Bretagne, entre os rios Vilaine e Loire.
deixado em 28/06/11 às 10:08
Toda a razão louise. Obrigado pela correcção.
deixado em 28/06/11 às 11:38
Manuel Luzia
Boa noite

Não tinha pensado nesta questão do sal, mas faz todo o sentido sim senhor. Normalmente a pessoa escolhe o mais barato (e agora com a crise ainda mais). Uma vez por outra tenho comprado um sal melhorzinho mas nem sempre. Agora já comprei o Marnoto e da próxima que fizer pão vou usá-lo.

Quanto a pão, habituei-me a fazer a mesma receita e não tenho variado muito. De um modo geral tem saído sempre bem. A última vez que foi na quinta-feira passada, amassei 2 kg de farinha.

Uma boa semana para todos

Manuel Luzia
deixado em 04/07/11 às 22:49
Marlene
Olá Paulo e aos restantes leitores,

Antes de tudo quero felicitar este interessante post . Parece-me super importante que, se possível, usemos os produtos nacionais que, quase sempre, são uma óptima qualidade e assim ajudamos os nossos produtores.

Aproveito este post para perguntar a todos se sabem/conhecem padarias nos distritos do Porto, Braga ou Viana que façam pão com as técnicas de antes, que cozam a lenha, que usem isco, que apliquem fermentações largas, enfim... que seja a vossa padaria de eleição. Onde é que está o vosso pão maravilha?
Tenho estado a investigar mas tenho tido dificuldade em encontrar estas padarias (que quero acreditar que existem). Principalmente porque estou fora de PT e as padarias não têm página internet.

Espero as vossas respostas.

Ah... quando vou de férias a casa dos meus pais, como o pão que a padeira deixa à porta siiimmm ainda temos esse luxo!!!). É o mesmo forno desde quando era miúda, mas o sabor, a textura e o tamanho mudou muito. Cozem a lenha, é verdade, mas falta ali qualquer coisa. :(
deixado em 11/07/11 às 14:11
Miguel Gandarinho
O meu pai (e alguns familiares) herdaram a sabedoria de produzir sal, o famoso e quase extinto sal de aveiro. O grande problema aqui é mesmo o que referis.te, o sal industrial porlifera sobre o sal marinho tradicional devido ao mais baixo preço e à incapacidade de exportaçao por parte de qem explora estas salinas.
deixado em 11/09/12 às 17:42
Miguel, é uma pena. É uma arte que se perde! Muita sorte para a família! Se algum dia passar por Aveiro, adoraria visitar!
deixado em 12/09/12 às 16:35
Miguel
Curiosamente, tambem estou a aprender a arte de ser padeiro, sou ajudante numa padaria local, e percebo perfeitamente o quanto a qualidade da materia prima influencia o produto final, mas até aqui em aveiro, com a riqueza de sal que pudia ser aproveitada, nao se usa o sal de aveiro em funçao de maiores margens de lucro.↲Quando passares por cá tenho a certeza que serás bem recebido. Um abraço
deixado em 27/09/12 às 09:59
Zine de Pão
Um blogue de um padeiro amador fascinado pelo pão feito de um modo artesanal, com tradição, os melhores ingredientes, amor e dedicação. Receitas, dicas, discussões, confissões e deambulações sobre pão.
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